sexta-feira, outubro 15, 2004

 

Cavalo dado


Também tem o seu lado positivo o facto da Suiça ter tão bons lavadouros de dinheiro: há sempre uma loja de relógios de luxo em cada esquina. Assim, mesmo não tendo relógio, consegui aperceber-me dos meus trinta e cinco minutos de atraso quando cheguei à porta do restaurante. O jantar tinha sido anunciado como internacional, mas quando o convite é feito por latinos, deseducado é quem chega a horas e faz o organizador sentir-se mal por ser o último a chegar. Meia hora deveria bastar para evitar tal afronta, e entrei confiante.

A única pessoa do grupo que eu conhecia estava sentada ao centro da mesa, e a única cadeira que estava vaga encontrava-se num dos extremos. Ele predispôs-se de imediato a mudar-me o poiso, mas acabei por não perceber a nova estratégia de colocação, uma vez que acabei por me sentar no outro extremo, onde me encontrava à mesma longe dele, e rodeado de desconhecidos. Só podia ser para que eu fizesse novas amizades. À minha volta estava um egípcio obeso, um vietnamita tísico e uma mexicana alta, esbelta e branca. Noves fora nada, a coisa só poderia ter sido arranjada com a mexicana. Ainda pensei que o gajo me quisesse lixar, e que me tivesse feito presa dum casal homossexual egipício-vietnamita à procura de festa a três, mas o interesse que a mexicana mostrou desde logo na minha conversa inútil garantiu-me que o assunto seria com ela. "Mas repete lá outra vez donde vens?". Eu no México só tinha conhecido flácidas, baixas e morenas...

O jantar acabou antes da passagem do último autocarro, e como tinha de ter de ficar a pé para ter desculpa para ir com ela para casa, propus um copo num bar ali perto. Uma cerveja depois e, azar dos azares, a montra da loja da Rolex dizia que eu já não tinha como chegar a casa. "Não te preocupes, eu levo-te". Quando chegámos ao parque de estacionamento, tentei imaginar qual seria o carro duma mexicana. Provavelmente um daqueles pedaços de chapa velha que contaminam as selvas maias: aquele 205 à esquerda ou o Panda à direita? Nenhum dos dois, que a miúda movia-se com o estilo dum Audi TT!

Mesmo fora da barra do Tejo, eu não poderia deixar de ser um português acolhedor à porta de minha casa: "subimos para um chá?", apostei eu na sofisticação. Nunca entre eu num casino, que perderei até a roupa interior. Percebi a minha incapacidade para apostas quando ela mostrou mais apetites de tequilha. Perdição maldita, eu não tinha tal néctar nos meus aposentos. "Não te preocupes, bebemos em minha casa". Teria eu percebido bem a conjugação do verbo no plural, ou teria eu de melhorar a minha compreensão de espanhol? Ela estava mesmo a fazer-se de novo à estrada sem requerer que eu saísse. Casino não, mas no totoloto jogarei: estou numa onda ganhadora!

Ela vivia numa penthouse com vista para o lago, maior até que o Clube Recreativo e Cultural da minha aldeia! "Vamos então à tequilha", e o meu estômago amedrontou-se com a lembrança das tequilhas baratas nas tascas obscuras da Cidade do México. Mas de barato, a garrafeira nada tinha: envelhecidas em cascos, já dos seus vinte anos, as tequilhas apresentavam-se apetitosas.

Depois de provar de todo o ramalhete, uma cervejita é que ia bem para apaziguar o bucho. Será que ela tinha disso? Provavelmente apenas Coronas ou ruindades afins, pensava eu. Mas ao abrir o frigorífico, descobri, ó musa das musas, Sagres. Sim, essa mesmo, a mais verde-rubra das cervejas britânicas!

Tudo isto parecia bom demais para ser verdade, mas ninguém se preocupa com o dente do cavalo que é oferecido. Considerei apenas que, tantos anos depois de ficar a ver a sorte dos outros, tinha finalmente chegado o meu dia. A esmola era de facto grande demais, mas não sendo eu pobre, não tinha direito a desconfiar, e recostei-me no sofá a saborear a vitória.

Está provado cientificamente, li eu outro dia numa revista, que a cerveja não se compra, apenas se aluga. Por esta não tinha pago preço ou aluguer, mas não seria por isso que a podia juntar à minha fortuna, e lá tive de lhe dar o destino normal.

Quando regressei, pensei estar noutro lugar, outra dimensão. As luzes estavam apagadas e havia um cento de velas acesas espalhadas pelo espaço da casa, algumas delas alinhadas no chão, desenhando um caminho a seguir. Ao fundo deste corredor sagrado, fui encontrá-la de robe vermelho semiaberto, a chamar-me num sussurrar demoníaco, de braço direito esticado e indicador curvando-se suavemente.

Ainda pensei em voltar para trás, talvez tivesse saído da casa-de-banho pela porta errada, por alguma passagem secreta que dava acesso a uma fenda espacio-temporal, a porta que teria levado Dante no seu passeio infernal. Tentei recuar, mas já era tarde demais, já os seus braços me envolviam, já o meu corpo cedia aos seus comandos em direcção ao leito.

Deitou-me e cobriu-me com o seu corpo esguio. Esticou-me os braços e entrelaçou-os nas barras da cabeça da cama de ferros. Arrancou um a um os botões da minha camisa, e serpenteou-me o tronco com beijos e pequenas mordidelas. Revolveu-se sobre mim, até que agarrou também ela os ferros e me pressionou o baixo-ventre com o peso do corpo. Nesta luta de forças não me poderia deixar controlar: libertei os braços, agarrei-a com força, rodei-lhe o corpo e passei eu a ficar por cima. Ela não pareceu importar-se, tal era a face de prazer que mostrava. Parecia até que tinha querido gerar esta fúria em mim. Abri-lhe o robe e percorri o seu corpo desde o ventre até ao pescoço.

Quando virei a cara para o lado para receber os seus lábios sobre a minha face, vi num pedestal ao lado da cama uma estátua enorme da Virgem, que me olhava de cima para baixo com ar de sádico gozo, como de quem condena alguém à mais terrível tortura. Mirei a minha anfitriã e reconheci nela o mesmo olhar fatal. Afastei-me, e pensei ver à luz diminuta das velas as barras da cama a tomar a forma de tentáculos, movendo-se na minha direcção.

Corri porta fora o mais depressa que pude, sem sequer olhar para trás, sem me despedir da tequilha, da Sagres ou do Audi TT. Sou agnóstico, mas se puder ficar longe do fogo do inferno, tanto melhor!

Comments:
Viajas por entre mundos, mas será que viajas por ti próprio?

-@
 
És é maricón pensará ela neste momento
 
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